domingo, 1 de julho de 2012

Amor burguês

Havemos de engordar juntos.
     Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.
     As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.
     É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

     Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

     As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.

     Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

     Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

     E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.
     Nós acreditávamos.

     Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)
















Há quem tenha tudo e não o valorize. Há quem não tenha nada e tenha que se conformar a isso.
São sortes!

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Raizes....

       Como sabem chegou ao meu momento de partir. Não foi uma decisão voluntária, mas sim imposta. Imposta pela minha falta de estabilidade profissional e pela vontade de através desta conseguir a tão desejada estabilidade pessoal. 
       Como as noites têm sido de solidão e de insónia, antecipando uma longa maratona para acabar tudo o que ainda tenho que fazer na escola, e o colocar em caixotes tudo o que me pertence, tenho-me sentido invadida por uma quebra súbita de energia, que me tem impedido de fazer o que ainda tenho para fazer. Porquê? Porque podemos encher caixotes com coisas, mas não de pessoas, lugares, sentimentos, redordações, ou seja, não podemos levar connosco as raizes que nos prendem aos lugares onde está o nosso coração.
      Como sei que o mundo dá tantas voltas e nem sempre aquilo que queremos se realiza, tenho trabalhado no sentido de que seja um "até breve", mas só o tempo o poderá dizer. Afinal, quando somos colocados à prova, todos os que se encontram à nossa volta também o são e nesta luta contra o tempo, nem sempre saímos vitoriosos...
      Um obrigado do fundo do coração a todos os que me acarinharam e ajudaram nesta minha longa passagem por cá. Serão sempre relembrados com muito carinho.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Chegou o momento de citar O Livro

        Mateus 5:
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;



Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;


Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;


Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;


Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;


Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;


Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;


Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa.


Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós.


Vós sois o sal da terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.


Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte.


Mateus 5:4-14